quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As janelas da alma

O passado, às vezes, acelera rápido demais, em busca do lado avesso do tempo, enquanto o futuro insiste em se transformar num presente fugidio. Conheço pessoas que perdem momentos preciosos de suas existências, contemplando uma época que jamais retornará e amargam os seus dias em busca das memórias e dos momentos perdidos.

Convivo, também, com outras que se recusam a enfrentar a vida que eclode além de seus refúgios, verdadeiros claustros, ora redoma de vidro, ora bolha de sabão, perdendo, com isso, o privilégio de disputar com o sol a riqueza das sombras, a competir com as flores a beleza da Primavera e aceitam se ensimesmar dentro de seus frágeis casulos, olhando a vida através da transparência de suas janelas.

Conheço ainda homens e mulheres, sejam jovens ou não que, ao se depararem com o sucesso dos outros, destilam sobre eles palavras ácidas como fel e se detêm nas falhas, mesmo que esporadicamente cometidas, com a mordaz intenção de eclipsarem a grandeza do feito. Com tal atitude, parece que só têm olhos para enxergar o lado mais feio dos com que convivem, das ações executadas e das coisas para serem observadas. Acredito que só se detêm para ver ressaltados os erros alheios sem, no entanto, encantar-se com a boniteza que emana das pessoas, das coisas ou do realizado por elas.
A esse tipo de seres, que denomino de desmazelados ou desnaturados, só se pode dedicar pena por ser o menor e o mais infeliz dos sentimentos oferecido a alguém assim. Imagino, com isso, que deve se sentir ainda mais infeliz porque, somente quem tem um sentimento em escala tão inferior, como o ressentimento e a inveja, é capaz de se contentar com a insignificância da compaixão.

Esses seres ultrapassam os limites do bom senso e se envolvem na análise da vulnerabilidade dos que lhes são próximos, extrapolando nas críticas do que, inadvertidamente, não deu certo, ou não saiu exatamente como o almejado. As vítimas de sua cólera podem acertar mil vezes, mas basta o menor, talvez um único deslize, para que, ante um olhar míope, as falhas se agigantem. Muitas vezes, um imperceptível erro pode se transformar, na visão distorcida daqueles, numa grande falha, que fazem questão de relembrar a fim de guardá-la num glóbulo bem escondido da memória para jamais esquecerem e, com mais facilidade, cobrarem.



É justo nessas ocasiões que devem se colocar no lugar do criticado e entabularem perguntas, dirigidas a si mesmos, se fariam o que criticam melhor ou de outra forma mais interessante. Antes de lançarem desastradas críticas ou destilarem o seu veneno, devem abrir as janelas da alma para praticar o que a sensibilidade popular, há muito, toma conta dos mais sábios: se “as palavras valem prata, o silêncio vale ouro”. Portanto, se não se tem nada de bom ou de construtivo a dizer sobre alguém, é muito mais compensador não se dizer absolutamente nada.

Pensem nisso!

*Este texto foi escrito em homenagem a uma irmã muito querida, a Adejane, profissional dedicada, competente e criativa, mas que, por estranhos meandros da vida, e, por procurar atingir a perfeição em tudo o que realiza, muitas vezes lhe são lançados ferinos estilingues contra as suas realizações. Por ser pessoa de grande sensibilidade, sempre guerreira consegue, anjo caído, levantar-se contra os ataques lançados às janelas de seu calejado coração.

É a ela, também, que dedico o poema abaixo.





JANELAS

Haja chuva ou ventania,
no inverno ou no calor,
a janela tem mania
de um espreitar sem pudor...
Testemunha, alcoviteira
que revela ou denuncia,
ao abrigo da soalheira,
ela esconde... ou anuncia...

A janela enxerga longe
um fato sério ou banal
à socapa espia o monge,
ou o arrufo conjugal...
A fresta d'uma janela
pode ser uma armadilha
tudo que passa por ela
é bom tema de "partilha":

Promete sonho à criança
alenta o velho a esperar...
Mirante que não se cansa
da vida sempre a passar...
Descerra-se no calor,
vedada se é grande o frio,
acena com uma flor,
acolhe um gato vadio...

Olho a janela sem riso
sem bate-boca, arrelia,
parlatório onde o juízo
é sempre o prato do dia...

Traga Zéfiro nas asas
a orgia de outros ventos
a fecundar as janelas
co’a primavera de alentos.
Soprem ventos de Levante
a clausura sufocante,
libertem, por piedade,
o Canto desta cidade!
Sylvia Cohin

2 comentários:

  1. Bom dia mana querida!

    Tua insistente guereira esteve muito doente, problemas de garganta, desde quinta-feira à tarde, por tal razão faltei o trabalho na sexta-feira e não pude ler essa maravilhosa homenagem.
    Quisera poder fazer uma para ti com tanto conhecimento d´alma como o fazes em relação a mim.
    Não sei se tivemos um ligação em outras vidas muito mais forte do que a deste mundo, mas tu me conheces e és sensível aos meus passos e a minha caminhada.
    Acho que continuo lutando por ter tu a observar os meus passos e a me compreeder, cada palavra, cada vírgula do que escreves é um aprendizado para mim.
    Nem preciso estar perto de ti para assimilar tudo o que me ensinas.
    Ah! São tantas coisas, minha mestra, que nem consigo expressar direito, tantos sentimento que fazem minha auto-estima subir ao mais alto das montanhas e não ser narcisista.
    Cresço a cada dia com teus saberes e como sempre digo sou um ser em constante aperfeiçoamento.
    Muitos de meus sonhos juvenis e também pós-juvenis sei que não poderei realizar mas vou continuar lutando pelo principal deles ser alguém que eu posso gostar imensamente... já me gosto bastante mas ainda não é o suficiente.
    Quanto ao texto sempre tenho as pessoas enumeradas a minha volta, e sobrevivo a elas. Acho que já até fui uma delas!
    Mil agradecimentos e muitos beijos estalados.
    Eu te amoooooooooooo d+
    Adejane

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  2. Olá, Djeine querida:
    Agradecida fico eu por tuas palavras elogiosas e de reconhecimento. Podes ter certeza de que o que escreves em teus comentários surtem o mesmo efeito em mim como em ti. Por dares importância aos meus escritos é que, ao escolher as palavras sobre quem ou o que vou manifestar, reveste-se de uma responsabilidade muito grande.
    O que disse sobre e para ti são expressões reais, que brotam do lugaespecialíssimo que ocupas em meu coração.
    Ah! Estava preocupada porque não aparecias. Pobre garganta, que pena que não estava próximo a ti para te dar o merecido colinho.
    Um beijão e um abraço muuuuuuuito casrinhosos.

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