sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O doce sabor da vida

Questionada por um conhecido sobre o motivo de não ter lido mais texto meu em Zero Hora, argumentei-lhe que andava com preguiça de escrever. Preguiça?! retrucaram meus neurônios. Não me senti encorajada a lhe dizer que estava desencantada. Nada de tão grave que me fizesse abortar uma articulista de jornal tão importante. E não iria revelar a ele que sou mulher de fases. Tenho um tempo de semear e um tempo de colher... Este era o de...de que mesmo?

Na verdade, não disse a ele que não escrevera mais, porque, mesmo acreditando ser um dos textos mais bonitos dentre todos os já tive veiculados em ZH, o último que enviara àquele períodico num mês de setembro, não fora publicado.

Apresento o texto rejeitado (O doce sabor da vida) e me digam se não é bonito:


A primeira vez em que tive um texto publicado em Zero Hora, minha emoção foi tão vívida que senti vontade de cantar, falar para as pessoas, amar o mundo inteiro. A felicidade intensificou-se através das ligações recebidas congratulando-me, não só pelo texto por mim escrito, mas por ter acrescido ao meu nome o de minha cidade e o de meu estado. Percebi que, quando se tem a origem publicada, os conterrâneos sentem-se, da mesma forma, prestigiados. Desde aquele momento, comecei a entender que pessoas sensíveis não precisam de muita coisa para se ufanar de seu chão, mesmo que incontáveis situações conspirem contra o senso pátrio. Palavras significativas e gestos concretos despertam-lhes a força imperiosa e telúrica, que lhes deveria ser contumaz e inerente.

É preciso que algo aconteça, uma data importante para que aflore o orgulho de se ter nascido em um determinado lugar e para se perceber que a Pátria não é só um determinante de nacionalidade. É o solo onde se plantam amores, as pessoas com quem se interage, o singelo prazer em se extasiar com a policromia das rosas, a magia do labor diário. É a saudação entusiasmada a desconhecidos mesmo que tímida a resposta, a sensação do dever cumprido, o elogio desinteressado, o abraço caloroso, as despedidas na certeza do reencontro, o não ter que se pedir perdão, as trivialidades encantadoras do cotidiano. Até a pressa que contagia, a vontade em pular etapas para mais rápido se chegar ao almejado, o arrependimento de não se ter tentado, o peso na consciência em burlar a balança na falta de comedimento alimentar, a saudade dos que já se foram, a lágrima incontida, o telefonema adiado a amigos e familiares, os múltiplos deslizes do cotidiano.

São reminiscências e estranhas realidades que fazem o doce sabor da vida. Se um simples texto publicado em grande jornal causa euforia, imagine-se o rufar de tambores anunciando a passagem de escolares desfilando garbosos em homenagem à Pátria, o som de violas e gaitas gemendo vanerões e rancheiras ou o trote de cavalos anunciando a Semana Farroupilha. Numa dança festiva, vislumbre-se cada cidade, cada estado, todo o país ufanando-se por feitos grandiosos de sua gente, pela eliminação das vilanias, pela percepção do povo educado, saudável, seguro, realizado, usufruindo das benesses geridas pelo progresso, sentindo-se orgulhoso de si e de seu país, não apenas no 7 ou no 20 de Setembro, mas em todos os dias.

O que os cidadãos de bem não querem mais é sentir a sua cidade, o seu estado e o seu país como um fardo difícil de ser carregado e de não encontrarem motivos para festejar. O que se deseja, inspirando-se na emblemática figura de Sepé Tiaraju, na semana dedicada ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, é poder bradar, com galhardia, “este chão tem dono!” para se ter "ordem e progresso". É desejar que o torrão gaúcho retome a condição singular de “celeiro nacional”, desde que cada gaúcho seja um tropeiro do progresso sulino e um novo bandeirante do Brasil.

5 comentários:

  1. Minha amiga Arlete,nestes longos anos que acompanho o teu blog,sinto o teu amor e uma devoção por tua Santiago,nós que estamos distantes não entendemos o motivo pelo qual os teus conterraneos não vislumbram todo este teu potencial,pois a muito tempo já não pertences a esta cidade que tanto amas,seria motivo politico?Tu ocupares o cargo de Secretaria de Educação da tua cidade seria uma referência ao tudo o que já fizestes por este torrão.Ocupares uma Reitoria só iria engrandecer a instituição.Sei que estás um tanto quanto acomodada,mas não aceito que os teus conterraneos não venha te buscar para auxiliar naquilo que fizestes toda a tua vida,educar,ensinando aos outros tudo aquilo que aprendestes,embora te realizes nas tuas palestras.Mas,sinceramente,gostaria de ver o povo da tua cidade reconhecendo tudo isto,desculpe por ter me empolgado e tomado tanto o espaço e teu tempo.Abraços

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  2. Amigo:
    Como é bom abrir este blog e verificar que há comentários e sempre contendo palavras construtivas.
    Acertaste em cheio: aqui ainda persiste o coronelismo em que um único partido manda e desmanda, embora coloque, nos pontos chave pessoas de grande capacidade, outras, ...nem tanto.Como já militei em partido oposto, sou persona non grata!
    Uma amiga minha e de meu marido, grande líder político, certa vez falou-me exatamente assim: "Tu és o gênio mais burro que conheço!" E nem me deu tempo, respondeu: Tu és tão burra e prejudicial a teu marido. Ainda não te deste conta de que estás no lado errado? E continuou: Aqui, quem manda somos nós( os fliados e caciques do partido), quem é contra é nosso inimigo. Vem pra o nosso lado e terás tudo o que quiseres. Entendi o recado. Continuei, no entanto, mais "inimiga ainda. Esse foi o meu legado...
    Como a raposa e as uvas, ..os cargos estavam "verdes", não me serviam... e eu era "perigosa" demais para eles...
    Quanto a meus conterrâneos "civis", sempre me valorizaram. Convites para trabalhar em cargos de chefia sempre recebi Um tentou-me em demasia: revendedora de automóveis . Só o recusei movida pelos ciúmes exagerados de meu marido. (Como sempre o amei muito, fiquei receosa de perdê-lo). Mesmo porque adoraaaaava ser professora.
    Na cidade, tudo o que promovo ou participo é sucesso garantido. Não é uma forma linda de valorização?
    Obrigada por reconheceres o meu talento, exageras nesse reconhecimento, é verdade, pois és um bom amigo.
    Um abraço.
    Arlete

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  3. Esqueci de ressaltar: o cargo na revenda de automóveis era para comandar toda a região Sul e Sudeste. Alegava o Presidente (dono) que eu sabia vender carne até para açougueiro! Portanto,...(É a velha máxima: tudo o que faço, procuro fazê-lo muito bem e apaixonadamente!)

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  4. Vou ser sincero eu agiria como o teu marido,até porque não tem nada a ver com o teu perfil.Voltando a politicagem,já tive alguns contactos com o Chicão,Francisco Gorski,nada politico,foi relacionado na area de esportes,Cruzeiro e o futsal de Santiago,mas no próximo encontro,prometo que o irei questionar sobre este assunto,falta de reconhecimento.Tu sabes Arlete,nós brasileiros não valorizamos os nossos herois,o Pelé é mais reconhecido fora do Pais,o próprio Roberto Carlos nunca vi ser homenageado pelo governo,só irão homenagea-lo quando morrer.Hoje tirei para pegar o teu pé e o teu tempo,mais uma vez peço desculpas.

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  5. Bondoso amigo:
    Dou inteira razão a toda essa turma que é "dona" da cidade, Chicão, Toninho, Julio Ruivo, por preencherem os cargos municipais com pessoas de sua real confiança e por quem faz campanhas eleitorais para elegê-los. São cargos que nunca estiveram em meus propósitos. Já fui "chefa" e sei o peso da liderança. Cargo político, nem pensar. (O recebido por uma ou duas palestras equivale ao salário de uma chefia importante, portanto fico com o que me dá inteira satisfação...)

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