segunda-feira, 4 de maio de 2009

O voo da borboleta amarela


A borboleta amarela ia e vinha, ora fazendo evoluções como se ensaiasse ousados voos num trapézio que só ela dominava. Ora se aquietava, planando rasante às folhagens que, indiferentes, balançavam-se ao ritmo do vento.

Ia e vinha. O que haveria em meu quintal que motivava a permanência da borboleta? Seriam as mágicas figuras desenhadas pelas sombras que as escondiam do sol? As cores infiltradas nas vidraças que roubavam a policromia da vida? Os cheiros variados que emanavam do solo? Flores, não! Murchavam pelo egoísmo das chuvas ensaiadas e, há tanto tempo, ausentes. O que seria, então, que mantinha a borboleta num insessante ir e vir?

Risos de crianças não seriam. Há muito as minhas alçaram os seus voos. Som de vozes aquietavam-se na sesta domingueira. Resto de comida não poderia ser. Borboletas são seletivas, cuidadosas em seus manjares.

O que a manteria por tanto tempo aqui? Borboletas são autênticos arautos da liberdade, do descomprometimento. Essas figurinhas paradoxais e frágeis são um doce hino de exaltação à vida, testemunhas vivas da inexorabilidade e da presença da morte.

Ia e vinha a borboleta amarela. Insistente, solene em suas coreografias variadas. Aproximo-me e ela se aquieta, planante como se percebesse o encantamento de meu olhar carinhoso. Aproxima-se mais, retraio-me. Timidamente, estendo a mão direita: a mão da amizade. Como um milagre e sentindo-se acaricida, a borboletinha aceita o oferecimento e pousa, cativada por dedos que não são ameaças.

Instantaneamente, entendo tudo. A borboleta amarela sabe que eu amo a vida. Irmanamo-nos na escolha de nossos quereres, por isso, a permanência dela em meu quintal. Anuncia que a vida é passageira, compartilhamos a vontade de estar sempre de bem com ela e focamos os nossos olhares no belo nascido de voos delineados em corações amantes.

Paradoxais são também as nossas vontades: a dela, a borboleta, que tem asas para voar para onde quiser e eu, cujas pernas me retêm no caminho. Sinto inveja do voo livre da borboleta amarela, que pode voar por outros quintais e permanece aqui. Voa num espaço limitado de uma casa com número, numa rua com nome, numa cidade perdida em um país sem rumo.

Nesse claustro, embelezado pela luminosidade do sol, vivo eu. Aprisionada pela decepçao, estarrecida com os escândalos que assolam o Brasil e por sentir o desencanto do povo que assiste a tudo e se cala, como se tivesse deixado de acreditar em sonhos e lhe houvessem arrancado, das entranhas, a esperança de ver florir um país ético, vigoroso e rico.

P.S.: A inpiração para escrever esse texto surgiu após a leitura de um trabalho acadêmico, belamente escrito por Cinara Velasquez.

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